Vivemos numa época de incerteza. As sociedades anteriores à nossa viveram com um futuro talvez mais sombrio, mas a estabilidade das suas condições de vida – por muito negativas que fossem – permitia-lhes pensar que o porvir não ia lhes trazer demasiadas surpresas. A perplexidade é uma situação própria das sociedades em que o horizonte do possível se abriu tanto que os nossos cálculos acerca do futuro são especialmente incertos.
O século XXI estreou-se com a convulsão da crise económica, que produziu vagas de indignação, mas não ocasionou uma especial perplexidade; contribuiu até para reafirmar as nossas principais orientações: quem eram os malvados e quem eram os bons, por exemplo. O mundo voltou a categorizar-se com nitidez entre perdedores e ganhadores, entre o povo e a casta, entre quem manda e quem sofre, ao mesmo tempo que se atribuíam as responsabilidades com relativa segurança. Mas a atual paisagem política encheu-se de uma deceção generalizada que já não se refere a algo concreto, mas sim a uma situação em geral. E sabemos que o mal-estar, quando se torna difuso, provoca perplexidade. Irrita-nos um estado de coisas que não pode contar com a nossa aprovação, mas irrita-nos ainda mais não sabermos como identificar esse mal-estar, quem culpar por ele e a quem confiar a mudança da referida situação.
| ISBN | 9789720032324 |
|---|---|
| Ano | 2019 |
| Editora | Porto Editora |
| Categorias |
Livros > Ciências Sociais e Humanas > Ciência Política
Daniel Innerarity
Daniel Innerarity é professor de Filosofia Política na Universidade do País Basco, em Espanha, e diretor do Instituto de Gobernanza Democrática. Leciona também no Instituto Universitário Europeu de Florença, onde é titular da cátedra Artificial Intelligence & Democracy. Foi professor convidado em várias universidades, como a Sorbonne, a London School of Economics e o Max Planck Institut for International and Public Law de Heidelberg. Recebeu, entre outros, o Prémio Euskadi, o Prémio Nacional de Ensaio em Espanha e o Prémio Nacional de Investigação Ramón Menéndez Pidal em 2022. Com mais de quinze títulos publicados até à data, a sua obra está traduzida em vários idiomas, incluindo inglês, italiano, alemão e francês. |


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