Com a presente edição temos acesso, pela primeira vez, em português, a uma parte fulcral da literatura de Agota Kristof – o teatro. Apesar de escrever em vários géneros literários desde a adolescência, é o teatro que marca o início da carreira literária de Kristof. As suas peças começam por ser representadas em pequenos cafés de Neuchâtel, na Suíça. Nesse arranque são já tratados os temas essenciais da sua restante obra literária: as fronteiras, a identidade, a violência, a solidão. O estilo breve, conciso, implacável começa aqui a ganhar forma com a sua escrita para teatro, onde as referências espaciais e temporais são praticamente anuladas. Em algumas peças deixa a indicação “pode ser representado sem cenário”, e evita referências que possam distrair o espectador ou situá-lo num contexto determinado. Kristof, a partir da sua escrita para teatro, oferece-nos uma visão lúcida e cruel de um mundo dominado pela violência e o isolamento. Os protagonistas são anti-heróis que não inspiram compaixão, empatia ou simpatia, apenas desassossego e incompreensão. Se tivéssemos que resumir o seu teatro (e a globalidade da sua obra) a um único tema seria com certeza a fronteira, que não se pode nem se deve atravessar. Quando um personagem o ousa fazer, desencadeia um mecanismo de consequências imprevisíveis. EmO Monstro, acabar com o Monstro e com a fronteira que o define leva à aniquilação da povoação. EmA estrada, uma das peças favoritas da escritora – que se declarava inimiga dos automóveis – as estradas, à semelhança das fronteiras, dilaceram o mundo. A fronteira encontra-se igualmente emA epidemiaeA expiação, funcionando como um fantasma que avança com o desejo irreprimível de conquistar novos territórios aos humanos (tanto exteriores como interiores). Agota Kristof produz um total de vinte e quatro peças teatrais. Algumas das suas peças mais famosas são editadas pela primeira vez pelas Éditions du Seuil, em 1998.
| ISBN | 9789895357871 |
|---|---|
| Ano | 2026 |
| Número de páginas | 130 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Dois Dias |
| Categorias |
Livros > Artes > Teatro
Agota Kristof
Agota Kristof nasceu em Csikvand, Hungria, em 1935. Teve dois irmãos, Jenö, que dizia ser o seu duplo, e Attila, que se tornará escritor. Aprende a ler muito rapidamente, aos quatro anos. Em 1944, a família muda-se para Köszeg, a futura cidade da Trilogia da Cidade de K., na fronteira austro-húngara. A Hungria é ocupada, em 1949, pelas tropas soviéticas. Agota Kristof entra no colégio interno de Szombathely. Para escapar às duras condições de vida e ao tédio, começa a escrever poemas e peças de teatro, e mantém um diário. Nenhum deste material literário sobreviveu. Em 1956, abandona clandestinamente o seu país na companhia do seu marido e da sua filha recém-nascida. Refugiam-se em Neuchatel, na Suíça. Agota Kristof refugia-se igualmente na língua francesa, essa língua que lhe foi imposta pelo acaso, e que lhe iria “vampirizar” a língua materna. Trabalha durante anos como operária numa fábrica de peças para relógios. Nas décadas seguintes, continua a escrever, sobretudo poemas e peças de teatro. Pouco deste material é publicado. Entre 1981 e 1984, escreve O Grande Caderno. Gilles Carpentier, das Éditions du Seuil, publica-o em 1986 e foi um sucesso imediato, tendo conquistado o Prémio Europeu do Livro, em 1987. A partir de então, dedica-se inteiramente à escrita, publicando A Prova, em 1988, seguido de A Terceira Mentira, em 1991, novamente com a Seuil, a sua editora regular. Estes três títulos são atualmente lidos como a Trilogia da Cidade de K.. Entretanto, em 1989 e 1990, a revista Du, de Zurique, publica em alemão os textos que viriam a constituir A Analfabeta. No final da sua vida, Agota Kristof deixa de escrever em francês e entrega todos os seus manuscritos, a sua máquina de escrever, e o seu dicionário bilingue húngaro-francês, ao Arquivo Literário Suíço. Em março de 2011, é-lhe atribuído o Prémio Kossuth, o mais prestigiado prémio literário da Hungria. Foi, para ela, um sinal de reconhecimento do seu país natal. Agota Kristof morre pouco tempo depois, a 27 de julho de 2011. |


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