A figura do fantasma tem acompanhado a história do cinema desde o século XIX até aos nossos dias, marcando presençanuma grande diversidade de géneros fílmicos. Além disso, a própria arte cinematográfica tem sido, repetidas vezes, considerada e descrita como uma coisa espectral em si mesma. Em 1896, Máximo Gorki qualificou o cinema como um «reino desombras», e, já no século XXI, Jacques Derrida afirmou que a experiência cinematográfica pertence à esfera da espectralidade. Deste modo, ir ao cinema implica necessariamente confraternizar com espectros, ser assombrado, quer os filmes tornemos fantasmas visíveis, quer não.
No contexto português, Manoel de Oliveira e João Pedro Rodrigues surgem como os cineastas que reflectiram sobre aespectralidade do cinema de forma mais consistente. Atentando no funcionamento das suas narrativas de amor, loucura emorte, bem como nos seres que as protagonizam, votados a uma existência liminar, entre o mundo dos mortos e o dosvivos, este livro constrói uma galeria de retratos de figuras fantasmáticas, que, como se diz em Benilde ou a Virgem Mãe,«não pertencem a este mundo».
Tal como os retratos numa galeria são autónomos,e dados à contemplação individual, num percurso quese faz através da(s) sala(s) de exposição, também os capítulos deste livro são concebidos desse modo. Não setrata, então, de procurar activamente semelhanças entre os cineastas, nem tampouco diferenças, não obstante os pontos de contacto surgirem inevitavelmente,sendo, então, devidamente assinalados. A minha hipótese de trabalho consiste em elaborar uma espéciede mosaico no qual se possam ver em simultâneo(idealmente, em palimpséstica sobreimpressão) tantasconfigurações do mesmo problema de partida quantoobjectos particulares de estudo (i.e., personagens defilmes) existem.
[José Bértolo]| ISBN | 9789899006591 |
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| Ano | 2020 |
| Número de páginas | 272 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Documenta |
| Coleção | Imagens em Movimento |
| Categorias |
Livros > Artes > Cinema
José Bértolo
É doutorado pela Universidade de Lisboa (2019) e investigador do Centro de Estudos Comparatistas. Tem desenvolvido trabalho nas áreas dos estudos fílmicos, da intermedialidade e da literatura comparada, com especial incidência em questões de ficção e narrativa, representação e figuração, ontologia e materialidade das imagens.Publicou, na Documenta, «Imagens em Fuga: Os Fantasmas de François Truffaut» (2016), «Sobreimpressões: Leituras de Filmes» (2019) e «Espectros do Cinema: Manoel de Oliveira e João Pedro Rodrigues» (2020). Co-organizou os volumes «A Escrita do Cinema: Ensaios» (com Clara Rowland, Documenta, 2015), «Morte e Espectralidade nas Artes e na Literatura» (com Fernando Guerreiro, Húmus, 2019) e «Imitações da Vida: Cinema Clássico Americano» (com Fernando Guerreiro e Clara Rowland, Bookbuilders, 2020), e co-editou, com Margarida Medeiros, um número da «Revista de Comunicação e Linguagens» dedicado a «Os Fantasmas da Fotografia e do Cinema».Organizou e participou em conferências nacionais e internacionais, foi responsável pela programação de ciclos de cinema em espaços culturais e académicos, e tem colaborado com diversas instituições e websites.
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