Talvez tudo tenha começado de um modo estival nas bainhas do paraíso, com a imprecisão e o disforme a quererem sair dotubo e virar figuras. Havia uma caixa e a cor começava a derreter no gelado — é daqui que tudo partiu, diz-nos Carlos Corais,como se a infância ressurgisse de um lastro ao qual se quer regressar em tonalidades que buscam fixar-se num plano de tonsequilibrados. Não era a linha que fazia nascer as coisas, era a mancha, a afiançar, como escreveu Adorno, que era o Novo,o Isso, a desassossegar, ainda sem rosto, com riso a alastrar embora discreto, e no olhar, luminescência miúda a afinar a escuridade. Que coisas nos queria confessar? Porque no fundo o discurso já habitava a mancha que só tinha de buscar planos,no labor de enquadrar, para não continuar por aí a esvair-se, a desaparecer do olhar, a ser secundária ante a deambulação fataldas linhas — quer-se aqui uma certa quietude inquietante.
Entre a mancha e a figura alguma coisa se passa, balbuciou o génio que queria habitar tudo isto. Era uma criatura quetalvez possuísse o autor — figura a levar palavras ao forno, para que sejam bem cozidas. Não se limitava a ser amável, dado quetinha muitíssimo para contar, por exemplo, viagens, conquistas,dificuldades, formas de evasão, de explicação, de expiação. Parao génio, a solidão entre as casas comunicava a humanidade doescuro, quando a insónia teima e a cidade parece articulada pelasolidariedade entre insónias, pela actividade acanhada dos que nãoestão a amanhar o impartilhável dos sonhos. Há muitas criaturasnocturnas que produzem ruídos que as crianças temem comogargarejos, sons aquáticos, e que correspondem a figuras muito antigas, como as Górgonas, o homem do saco, os papões. Algumassão figuras de morte, outras de puro delírio, outras ainda sãoinquietações brandas ou sarcásticas. Está ali alguém? Onde está oantídoto materno que estanca os medos? Ou são vindas sucessivasque chegam e não chegam? Vens então como amigo? — perguntaCarlos Corais, qual hóspede que quer que lhe habitemos a amabilidade. Imagens que interrogam para acolher, sem impor, semexibirem escândalos ou dissimulações.
[Pedro Proença]| ISBN | 9789898833976 |
|---|---|
| Ano | 2022 |
| Número de páginas | 56 |
| Capa | Cartonada |
| Editora | Documenta |
| Categorias |
Livros > Artes > Arte
Carlos Corais
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