Raul Brandão: «Da sua existência oculta faz parte uma figura de dor calcada e recalcada, sobre a qual outra se encarniça com desespero.»
Um berço alentejano e plebeu, a que somam o colégio pobre em Lisboa (cinco anos de privações e maus tratos, e uma resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho, desabafa o próprio), a homossexualidade escondida pelas exigências da época, o balcão e o catre de uma farmácia no Largo do Mindelo (eu dormia num cacifo de seis palmos de largo por vinte de comprido e dez de altura, idem), o curso de medicina uma vez interrompido por absoluta falta de posses, bem cedo atingem nele as dimensões de um fracasso: Tenho a bruxulear-me, num esqueleto de vinte e seis anos, um espírito, pelo menos, de oitenta e quatro. E logo a seguir o corpo: Com os mesmos reumatismos, as mesmas varizes e o mesmo conservantismo estéril e casmurro.
Estas nuvens, que aos seus trinta e seis anos clareiam um pouco — altura do casamento riquíssimo com uma alentejana — aos trinta e sete desanuviam por completo com a viuvez precoce e a situação confortável de herdeiro universal: — surge então o Fialho dos invernos lisboetas, o cavaqueador burguês de chapéu de palha, que mesmo com mau tempo viaja num carro descapotável entre Vila de Frades e Cuba, «mais enfeitado do que uma noiva de aldeia», dirá Teixeira Gomes.
A qualidade fora-de-regras dos momentos negros de Fialho de Almeida (para mais em português e para portugueses que sempre alinharam, em momentos de maior verdade, um humor não perverso e de tonalidades essencialmente revisteiras) fazem oportuna esta antologia mínima mas violenta (desentranhada do milhar de páginas de Os Gatos e apenas uma vez, para o «Eça», do seu Figuras de Destaque, e outra, para o «Eu», no À Esquina: Jornal dum Vagabundo), afinal aquilo que um dos seus estudiosos «mais sérios» considera «o Fialho de mau gosto». Antologia que não poderia ignorar as páginas de morte sobre Guilherme de Azevedo, as que tanto intrigam pela falta de razão aparente, e as que negam a Eça a apoteose, quando ele mais não é do que um escritor «dissolvente», com qualidades de diletantismo, ainda sedutoras e bem depressa fastidiosas, assim como a ironia iconoclasta que em cinquenta anos passa, quando futuras gerações, mais cerebralmente definidas, começarem a rir de outra maneira.
Desvendar-se-á o mistério com o excerto de uma carta que Fialho escreveu a João Saraiva? Em cinco anos, diz ele, todo o mundo há-de encolher os ombros quando se falar de mim. Terão subido os que eu escarnecia ou desdenhava — surgirão outros que eu não vejo ainda. […] E o meu ódio por esses sinistros rivais — sempre, claro está, assim foi: — estará na razão directa da admiração que o talento deles me inspira.
[Aníbal Fernandes]| ISBN | 9789895682713 |
|---|---|
| Ano | 2026 |
| Número de páginas | 128 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Sistema Solar |
| Categorias |
Livros > Literatura
Fialho de Almeida
José Valentim Fialho de Almeida nasceu em Vila de Frades, no Alentejo, a 7 de Maio de 1857 e morreu na vila de Cuba a 4 de Março de 1911. Filho de um professor primário, que lhe ensinou os primeiros rudimentos, Fialho partiu em 1866 para Lisboa, onde concluiu os estudos elementares no Colégio Europeu. Acabaria por formar-se em Medicina, profissão que logo abandonou, para se consagrar exclusivamente à literatura. Em 1881, publicou o primeiro livro, Contos, que dedicou a Camilo Castelo Branco e, um ano mais tarde, A Cidade do Vício, considerada como a sua melhor obra de ficção. Colaborou em inúmeros jornais e revistas de Portugal e do Brasil, tendo-se distinguido como mordaz crítico de arte e de costumes e, sobretudo, como contista, que enriqueceu a literatura portuguesa com algumas das suas páginas mais expressivas. Em 1893, casa-se com uma abastada proprietária do Alentejo, ainda sua parente, mas enviuvou onze meses depois, vivendo os últimos anos da sua vida com o desafogo material que sempre lhe faltara. |


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