A leitura de Luís Adriano Carlos sobre José Régio é a mais revigorante e motivadora. Tantas vezes dado como um autor perfeitamente consumado, sem mais sobressalto ou mistério, Régio encontra nas pistas de Adriano Carlos uma justiça urgente. Aqui não se admite a visão preguiçosa que o toma como sujeito de pulsão recatada. Esse Régio é, em larga medida, imaginário, um certo preconceito ou facilitação, de leituras apressadas e oblíquas. Na panorâmica que se estende por estas páginas, perfeitamente explicada nos brilhantes ensaios de abertura, José Régio não sucumbe à teologia mas fascina-se com o estabelecimento da sua própria teodiceia. A força do seu pensamento vem genuinamente desse «amor que há entre Deus e o Diabo», um lugar único e complexo que cria um indivíduo por definir, imparável, intenso. Este é o Régio que me apaixona. Aquele que mediu o sangue e a sombra, aquele que recusou, debateu, analisou com rigor e jamais se rendeu. No seu verso sincero o mais que vejo é a dúvida, a impressão de que talvez se possa criar o Criador mas que, ainda assim, perderemos. É da condição humana tombar no abismo.
Valter Hugo Mãe
| ISBN | 9789720034809 |
|---|---|
| Ano | 2021 |
| Número de páginas | 368 |
| Editora | Porto Editora |
| Categorias |
Livros > Literatura > Poesia
José Régio
Poeta, autor dramático e ficcionista, de seu nome verdadeiro José Maria dos Reis Pereira, nasceu em 1901, em Vila do Conde, onde faleceu em 1969. Formou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Coimbra, com uma tese de licenciatura subordinada ao título As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa, na qual ousa apresentar como nome cimeiro da poesia contemporânea Fernando Pessoa, autor que não possuía ainda nenhuma edição em livro. É em Coimbra que colabora com as publicações Bysancio e Tríptico, convivendo com o grupo de escritores que virão a reunir-se em torno da criação da revista Presença. No primeiro número da revista, fundada com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, publicará o texto “Literatura Viva”, que pode ser entendido como manifesto programático do grupo, defendendo que “Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística”, pelo que, “A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe”. Definindo “literatura viva” como “aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria.”, aí reclama, para a obra artística, o carácter de “documento humano” e os critérios de originalidade e sinceridade. |

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