Mamã com Rosas Brancas
Beije a mamã em ambas as faces e depois corte-a em duas; verta-lhe por cima água a ferver; retire-lhe a cabeça, que sorri com bondade — iria tirar-lhe o apetite —, bem como a coluna vertebral e todos os ossos que possam ser desossados. Em água simples, coza batatas, que irá cortar às rodelas e pôr numa salada. Misture na salada bocadinhos de mamã e regue comazeitequandoservir.Nãoseesqueçadepôrumas quantas rosas brancas debaixo da travessa: elas irão proteger a toalha e, além disso, a mamã gostava tanto delas…
Por motivos insondáveis, esta obra nunca foi avistada nas estantes de livros de culinária, na companhia de títulos com igual sex appeal gastronómico, entre os escaparates da auto-ajuda e da ficção estrangeira. Obra representativa do estilo pânico cultivado porRolandTopor,ACozinhaCanibal(1970)serveaoleitor quarenta e três apetitosas receitas antropófagas — quase meia centena de modos de preparar o homo sapiens, uma das carnes mais injustamente subvalorizadas, de tão versátil e acessível —, bem guarnecidas de alguns truques de cozinha, aforismos deliciosamente macabros e sugestões de apresentação. Do míope gratinadoàincontornávelcabeçadepatrãocompuré,sem esquecer acepipes como o patê de camponês ou o picadinho de missionário com pão ralado — chefes Michelin e comensais de todoomundo,regozijaicomtantapropostadeconfecçãoe degustação do vosso semelhante!
| ISBN | 9789726083511 |
|---|---|
| Ano | 2019 |
| Editora | Antígona |
| Categorias |
Livros > Livros Práticos > Culinária
Roland Topor
RolandTopor(1938-1997),pintor,ilustrador,poeta,cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista francês impossíveldecatalogar,começoupordestacar-secomos desenhosgrotescosquepublicounarevistasatíricaHara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistaserespondeu-lhescomomovimentoPânico,que fundoucomFernandoArrabaleAlejandroJodorowsky,entre outros. O seu primeiro e mais celebrado romance, Le Locataire chimérique(1964),adaptadoaocinemaporRomanPolanski (OInquilino,1976),contaahistóriadeumburocrataabraços com crisesdeidentidadee paranóia.Emtexto comoemimagens, Topor atira-nos para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obrasvaleram-lheodesprezodecríticos,váriosprojectos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. O prazer foi todo dele. |


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